Certamente seria mais uma viagem dos infernos..."Boa noite irmãos, meu nome é Djair e desejo a todos uma boa viagem, com a graça de Deus, nosso senhor e pastor, serei iluminado para conduzi-los em segurança, amém". Que impostor! Nunca consegui compreender a necessidade geral de se clamar à potência metafísica ante a eminência - quase sempre escatológica - de partir numa jornada de deslocamento espaço-temporal. A idéia de abrir mão do suposto domínio sobre o meu próprio destino, é verdade, me causa certos espasmos gastrointestinais, sobretudo quando faço-o em favor de um condutor que tem certeza de que meu destino - como o dele e o de todos os outros sob seu temporário controle - depende estritamente dos desígnios do sobrenatural.
É certo que os espasmos sempre passaram, pelo menos até hoje, o que significa que o "trânsito pelo inferno" não coincide necessariamente com a morte. Bom para todos, mas especialmente para mim, cuja existência, se presume - do ponto de vista daquilo que lhe concerne - é a mais relevante dentre todas as outras. Certo, também, que do ponto de vista mais geral da história do universo, minha presunção, além de histórica e inútil, nada mais é que insignificante... como um peido inodoro. Sorte que, no mais das vezes, nos esquecemos destes pontos de vistas mais gerais, caso contrário a própria idéia do niilismo perderia o sentido: niilismo sim, mas desde que eu esteja no comando!
"Amém!!" repete o coro taciturno de passageiros. Pergunto-me se de fato eles compreenderam o significado, talvez escatológico, da sutil mensagem de nosso condutor, potencial algoz de merda! Como poderiam, apesar da aquiescência? Da seção intermediária de assentos, e de onde o coro foi o mais vigoroso, um certo joselito se deleita em versos nada apetitosos, acompanhados por uma batida quase atônica, procedente de um destes aparelhos eletrônicos que tornaram os fones dispensáveis – suas vítimas talvez ansiassem por uma dupla razão. Os da seção inicial exalavam todos aqueles odores pré, inter e pós-digestão. Dali, evidente, veio a voz menos vívida do coro, por assim dizer, já que quase todos estavam ocupados em deglutir seus bolos alimentares, distraídos em disseminar seus subprodutos gasosos. Do banheiro, o processo digestivo já atingia o estágio avançado de decomposição. Este infeliz, ao menos, parecia ser sagaz, já que pela composição da essência tinha se dado ao trabalho de acender uma ponta sintética para dissimular sua brenfa bem orgânica e poder enfim entrar na trip.
Certamente dos infernos...
Pergunto-me também se seria mera coincidência se uma vontade de potência absurda fizesse com que, dentre os passageiros, apenas eu sobrevivesse ao termo da mini-epopéia.
Quanto a mim, nada pude responder. Apenas pensei: "Brain of J.F.K ou Sir Psicho Sexy?... Seria possível incluir o Djair na lista de passageiros?”
(halaleluia)
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